Vinte e quatro dias, três
países, cinco mil trezentos e sessenta e nove quilômetros. Assim poderiam ser
resumidas nossas férias de verão. Mas muito pouco para tudo o que vivemos e
conhecemos nesses dias. Planejamos uma viagem a Roma conhecendo a costa
mediterrânea. Antes de começar a contar da viagem um adendo: mudamos de
apartamento no mesmo dia que iniciamos a viagem, isso gerou alguns percalços
como esquecer o cabo para baixar as fotos, a erva-mate e a garrafa térmica.
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| serra andaluza |
Saímos de Córdoba na
sexta-feira, 10 de julho, logo após o meio-dia em direção à praia de Denia, em
Alicante, nossa primeira parada. O caminho de quinhentos e poucos quilômetros
foi mudando aos poucos, começando pelas serras Andaluzas e suas plantações de
oliveiras, adentrando em Castilla La Mancha com seus mistérios de Don Quijote.
Passamos por cidadezinhas que a cada pouco te faziam lembrar as aventuras contadas
por Miguel de Cervantes. Era só deixar a imaginação voar um pouquinho para ver
passar Don Quijote e seu fiel escudeiro, Sancho Panza.
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| na rota de Don Quijote |
Logo entramos na
Comunidade Valenciana e a surpresa com a imensidão dos pomares de laranja valencia.
Aos poucos, a costa começava a aparecer e íamos acompanhando o mar ao mesmo
tempo em que o dia ia indo embora. Chegamos ao camping passado das dez da
noite. A primeira comprovação ao começar a montar a barraca era que tínhamos
deixado o suporte de luz, o que foi gentilmente resolvido pelo nosso vizinho,
que nos ofereceu a luz até terminarmos a montagem. A segunda descoberta foi
muito boa: o restaurante do camping e não só porque estávamos mortos de fome,
mas porque a comida era deliciosa, umas das melhores que experimentei na
Espanha, e o preço melhor ainda. A dona, uma venezuelana, deve ter sido
cozinheira a vida toda, além de ser uma simpatia de pessoa. Passamos quatro
dias aproveitando o calor da água do Mediterrâneo e a tranquilidade da pequena
Denia.
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| caminho para Denia |
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| praia de Denia, Alicante |
A segunda parada foi em
Cambrils, na região de Tarragona. Pela estrada seguíamos vendo os laranjais e o
interessante, plantados em degraus para aproveitar o relevo montanhoso.
Deixamos a Comunidade Valenciana e entramos na Cataluña. Para encontrar a
praia, a primeira dificuldade foi entender as placas indicativas, todas em
catalão. Depois de encontrar o camping foi só desfrutar da praia.
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| laranjeiras em degraus |
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| chegando na Cataluña |
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| Cambrils |
Deixamos a Espanha e
começamos a entrar na França. Aí encontramos nossa amiga Vanessa, que nos
salvou a vida com o francês e nos fez companhia o restante da viagem. Entramos
em Montpellier para buscá-la na estação de trem e depois de umas dez voltas na
cidade (meio perdidos) saímos em busca de um camping. A partir da França, não
tínhamos previsão de quantos dias ficar em cada lugar e tampouco onde íamos
parar, buscávamos hospedagem conforme íamos decidindo, o que gerou algumas
dificuldades, mas no final o resultado foi ótimo.
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| chegando na França |
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| Montpellier |
Depois de alguns
telefonemas, da Vanessa, conseguimos um bangalô muito legal em um camping em
Palavas Le Flots, mas só podíamos ficar dois dias. Subimos um pouco mais e
paramos em Les Issambres, na região da Costa Azul, um dos lugares mais bonito
da viagem. A paisagem começou a apresentar novidades, surgiam as videiras e, por consequência, as vinícolas. Também as primeiras lavouras de girassol.
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| Palavas Les Flots |
Les Issambres é uma praia pequena rodeada de penhascos, e, ao contrário dos lugares
anteriores, começamos a ouvir outros idiomas que não só o local. Uma praia bem
familiar, muitas crianças e muita gente lendo na praia. As famílias vão passar
o dia e levam tudo o que é necessário, incluindo livros. O lugar nos rendeu uma
das melhores experiências da viagem: piquenique na praia no final da tarde.
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| Les Issambres |
Aproveitamos também para conhecer Saint Tropez, uma antiga
vila de pescadores que hoje só é famosa pela quantidade de iates e concentração
de dinheiro por metro quadrado. Um lugar nada demais se tirarmos os barcos e as
mansões de famosos e milionários. Mas o passeio de barco pela enseada valeu
lindas imagens.
A próxima parada seria na
Itália, mas antes de chegarmos lá paramos em Cannes, uma linda cidade que
merece uma visita mais prolongada. A paisagem da serra na estrada vicinal que
pegamos para chegar a Cannes é espetacular, a estrada cheia de curvas e
penhascos dá uma emoção a mais ao trajeto.
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| caminho para Cannes |
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| Palácio dos Festivais |
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| Cannes |
Continuamos pela costa
mediterrânea em direção a Pisa, nossa primeira parada na Itália. A recepção em
terras italianas não poderia ser melhor. Logo ao cruzar a fronteira em direção
a Genova a rádio italiana começa a tocar Tribalistas. Entrar na Itália foi uma
sensação muito estranha, me emocionei ao lembrar meus antepassados que saíram
do país e me permitiram conhecer a sua terra. Entramos num longo caminho de
túneis e viadutos, uma paisagem belíssima, com cidades incrustadas nas rochas e
sempre com a torre de uma igreja à vista. Continuavam as lavouras de girassóis.
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| caminho para Pisa |
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| Pisa |
Em Pisa, outra surpresa, guaraná
antárctica no minimercado da esquina de casa, garantimos pizza com guaraná na
segunda noite. Na primeira fomos comer pizza num restaurante da Piazza Vittorio
Emanuele II. Ao contrário de tudo o que li e ouvi, as pizzas italianas foram as
melhores que comi até hoje. Pisa também nos ofereceu a primeira praia sem
areia. A Marina di Pisa, onde fomos, é uma praia cheia de pedrinhas brancas,
difícil de caminhar, mas com um lindo por do sol.
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| Pisa |
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| Marina di Pisa |
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| Rio Arno |
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| Marina di Pisa |
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| Piazza dei Miracoli |
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| Marina di Pisa |
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| Torre Pendente |
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| Piazza dei Miracoli |
Então chegou a hora de
cruzar as portas de Roma. Chegamos à capital no meio da tarde de uma quinta-feira.
Confesso que a princípio a ideia de conhecer Roma não me encantou, prefiro as
cidades do interior, mas como não se apaixonar por aquela cidade? Ainda mais
depois de conhecer o lugar que iríamos ficar. Optamos por uma casa, reservada
pelo Airbnb. E o lugar nos surpreendeu, uma villa num bairro a vinte
quilômetros do centro, parecia que estávamos em qualquer cidade do interior, no
alto de uma colina, com o rio Tevere passando ao lado. O primeiro passeio foi
para conhecer o Coliseo e seu entorno. Saímos quase ao meio dia de casa, depois
de calcular distâncias e horários do metrô, achamos que a melhor opção seria ir
de carro e deixá-lo em um estacionamento. Qual foi a surpresa quando depois de uma
volta a procura do estacionamento que tínhamos mapeado, encontramos uma vaga na
rua. A via di Monte Brianzo estava a quatro quilômetros do Coliseo e lá fomos
nós numa bela caminhada com muito calor romano. Como não tínhamos comprado
entradas antecipadas, estávamos preparados para enfrentar uma longa espera até
entrar, mas as expectativas não se confirmaram, em menos de vinte minutos
estávamos dentro do Monumento.
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| vista de casa, rio Tevere |
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| Piazza Venezia |
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| vista do Coliseo |








O segundo dia foi dedicado
ao Vaticano. Também tivemos sorte em achar estacionamento na rua e nem foi
preciso procurar, era sábado e quase não tinha movimento nas ruas. Dessa vez, a
espera foi um pouco maior na fila, até passar o detector de metais, mas não
mais que quarenta minutos. Depois da visita, passamos pelo correio do Vaticano
para enviar cartões para as vovós. E antes de seguir caminhando pelas ruas tranquilas
de Roma, uma parada para mais uma pizza. Em uma praça na beira do rio uma cena
insólita, ensaio fotográfico de um casamento chinês, noivos, pais, padrinhos e
alguns convidados seguiam as ordens dos fotógrafos gerando diversão do público
que assistia. Na volta para casa, a solução de um problema. Fomos atrás de
erva-mate em um mercado público do outro lado da cidade. O Nuovo Mercato Esquilino
lembra os piores dias do mercado público de Porto Alegre, sujo e fedido. Mas
encontramos erva, paraguaia, e garantimos uns mates vendo o por do sol no terraço
da casa e mais alguns durante a viagem.
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| não era F1, mas havia três ferraris na pista |
O
primeiro foi Florença, uma cidade encantadora. Aí tivemos o primeiro sufoco,
como não conseguíamos lugar para ficar resolvemos tentar algo quando
chegássemos lá. Por sorte, na primeira avenida que entramos tinha vaga em um
hostal. A razão de não haver quase disponibilidade de hospedagem era o Festival
de Orquestra Jovem, que acontecia na cidade. Do hostal saímos a conhecer a
cidade a pé. Na volta, exaustos, comemos a melhor massa italiana! Nos
despedimos da Itália com a lembrança da amabilidade e simpatia dos italianos.
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| visão do alto da cidade |
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| Duomo |
Antes de chegar à Marseille, na França, uma espiadinha rápido no Principado de Monaco.
Entramos em Marseille quase dez
da noite e fomos surpreendidos mais uma vez com o apartamento que escolhemos, extremamente
acolhedor, e com a atenção do proprietário. Em geral, os restaurantes na França
começam e terminam cedo da noite os serviços. Então, depois de instalados
saímos à procura de um lugar onde comer. O dono do apartamento nos acompanhou
na busca e durante o passeio ainda indicou onde encontrar o melhor pão, o
melhor açougue e as várias opções do bairro. No dia seguinte, um passeio pelas
longas ladeiras da cidade nos levou até a igreja de Notre Dame de La Garde, com
uma visão magnífica da cidade.
Restavam mais duas paradas
antes de chegar em casa. A primeira foi logo ao cruzar a fronteira da Espanha.
Voltamos para as praias, dessa vez em Roses, Girona. Apesar de estar em terras
espanholas, a impressão era de um território da França, de tantas vozes
francesas que ouvíamos. Só tivemos certeza de estar na Espanha pela maravilhosa
paella que comemos em um restaurante a beira da praia. Pela primeira vez, o
tempo se apresentou nublado e de noite uma bela chuva para acalmar um pouco o
calor, mas que levou também o sol.
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| As kombis chamam a atenção nas estradas da França |
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| praia de Roses |
Andamos um pouco mais e chegamos em Moncofa,
na região de Valencia. Encontramos mais uma praia com pedras. Uma paisagem
muito bonita, mas com poucas opções de banho, apenas em uma praia próxima foi
possível aproveitar o dia meio ensolarado depois de uma bela tormenta de vento
e chuva que nos recebeu na primeira noite.
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| Comunidade Valenciana |
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| Roses |
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| depois do temporal, bandeira vermelha |
Saímos de Moncofa ao meio-dia
para o destino final. A paisagem da estrada começa a mudar, saiam os pés de
laranjeira e entravam as oliveiras, estávamos na Andalucía novamente. Como
falei no início trocamos de apartamento e ao chegar ao novo fomos recebidos com
uma lembrança especial de boas vindas deixada pelos nossos amigos Cristina e
Michelangelo. Ainda sobre amigos, também recebemos o apoio dos amigos Antonio e
Maíra que cuidaram do nosso carro, com algumas coisas da mudança, enquanto estávamos
fora. Chegamos em Córdoba no final da tarde a tempo de aproveitar o calor e
jantar no nosso restaurante preferido, o Morilles Patanegra. Fim de férias,
hora de trabalhar para garantir as próximas!
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| pomares de laranjas |
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| ainda em Valencia |
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| a caminho da Andalucía |
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| estamos em Córdoba |