sábado, 28 de maio de 2022

Não vai cair

Mãe, não há outra opção. A senhora vai ter que sair. Como que não há opção? Claro que há. Passei a vida inteira te ensinando que sempre há algo a ser feito e agora tu vens com essa história de que não tenho o que fazer a não ser aceitar o fato? Foi pra isso que te formei engenheiro? Mãe, eu sou engenheiro químico. Ah, tudo igual, tu deves saber o que fazer. Vem cá, olha essa foto. Lembra da tia Júlia? Essa foi a última foto que tenho dela. Foi um pouco antes dela pegar aquele maldito avião. Depois daquilo nunca mais coloquei meu corpo naqueles monstros. Ela era tão linda, não? Mãe, eu não conheci a tia Júlia. Adorava comer laranja ali na varanda pegando um solzinho como ela falava. Eu falei pra ela ficar mais um tempo aqui com a gente, não tinha nada pra fazer em São Paulo, por que eu não insisti um pouco mais? Mas ela era teimosa que só, tu sabes, né? Saíste igualzinho. Mãe, eu não conheci a tia Júlia. Um dia, ela embestou de comprar um casaco pro teu avô. Queria que ele se vestisse como um apresentador da tv que ela achava lindo. Procurou em toda a cidade e me fez ir junto. Não existia o tamanho do teu avô, também naquela época a gente tinha só cinco lojas que vendiam roupa aqui na cidade. Mesmo assim, ela comprou um, claro que ficou grande, mas ela fez teu avô usar. E ficava dizendo: paizinho, o senhor ficou lindo com esse casaco. Era muito teimosa. E quando ela decidiu que iria embora pra fazer o tal curso de gastronomia? Lembra como teu avô quando enlouqueceu? Mãe, eu não conheci a tia Júlia! De onde ela achou aquela faculdade até hoje ninguém sabe. E nem vai saber, mãe! Mas dizia que era o sonho da vida dela, ser dona de um restaurante, e queria ir pra Paris, aquela doida. Imagina ir pra Paris e nem sabia falar francês. Dizia que lá estavam os melhores cozinheiros. Pobrezinha, nunca conseguiu. Vem, mãe, vamos começar a encaixotar esses pratos, a senhora precisa organizar por área, colocar as coisas da cozinha em um lado, do quarto em outro, pra a senhora achar mais fácil na hora de colocar no lugar. Já te disse que não vou a lugar nenhum, essa gente que arrume um jeito de assegurar o prédio, por que não fazem outra parede pra sustentar essas aí? Mãe, que ideia mais doida, ia cair tudo igual, a senhora tem cada uma. Vamos lá, me ajuda a separar isso logo, preciso voltar pro trabalho. De noite venho pra gente terminar, tá bem? Tu lembras o dia que a vizinha veio aqui reclamar do barulho? Mãe, eu não conheci a tia Júlia!! Teu avô tinha acabado de comprar a eletrola e a tia Júlia resolveu chamar as amigas para ouvirem música, me lembro como se fosse hoje. Além de ouvirem no último volume, ainda dançavam, às dez da noite. A dona Eulália não conseguia dormir, coitada, começava a trabalhar de madrugada no hospital e acordou com aquela barulheira do Elvis. E a tua tia bem tranquila disse pra ela entrar e ainda ofereceu um ponche pra dona Eulália. Sorte que teu avô ainda não tinha chegado do trabalho. Olha essa aqui, tia Júlia devia ter uns 15 anos, né? Mãe, eu não conheci a tia Júlia!!! Sim, isso, me lembro que fomos na casa da minha vó lá no interior e na volta paramos pra comprar melancia e melão na beira da estrada. Teu avô ainda tinha aquele carro verde claro, como era mesmo o nome? Não consigo lembrar, é tão antigo, acho que nem tem mais por aí. Corcel, mãe. Isso mesmo, era tão bom quando a gente saia com ele, íamos eu e teus quatro tios atrás, o vô e a vó na frente com a tia Júlia no colo, depois que a vovó morreu, teu avô se desgostou e deixou de dirigir, nem sei o que ele fez com o carro. Mãe, para de olhar essas fotos e vem me ajudar. Aí que tanta pressa, eles que esperem um pouco, não caiu até agora, não vai ser hoje.

Degraus

Parada no degrau da porta daquela casa que já tinha deixado de ser sua há muito tempo, o corpo tremia. Lembrava do que a mãe sempre falou: “arruma um marido como seu pai”. Tinha arrumado bem mais. Ao contrário do pai, seu marido era um homem que sabia tudo da vida e das letras. Assim ele a conquistou ao dizer no ouvido aquela frase que ecoa até hoje: “amor é fogo que arde sem se ver”. Nunca tinha escutado coisa mais linda. Lembrava das aulas de literatura na escola e de como sua professora se esforçava para fazer aquela classe de 40 alunos se interessar um pouco pelos versos escritos no quadro verde. Aquele dia em que tentou vender um casaco de veludo marrom marcou o início de sua história de amor mais real. Ele precisava apresentar um trabalho na faculdade, ela ganhar a comissão do dia. No final, os dois se encontraram no bar da esquina e acabaram a noite no pequeno quarto que ela dividia com a amiga. Era o começo de muitos dias de encantamento. Enquanto ele se preparava para concluir o mestrado, ela juntava dinheiro para viajar pelo mundo. Foram muitos encontros depois do trabalho, muitos chopes e batatas fritas divididos no mesmo bar do primeiro dia. Até que ele encontrou o motivo para convidá-la a dividir a mesma cama, tinha sido aprovado para uma bolsa de doutorado e poderia garantir o aluguel para os dois. Ela, contente, correu contar para a mãe, que espalhou pela vizinhança: minha filha se casa com um doutor. A alegria era geral. Por quatro anos, ela esqueceu seus planos de conhecer os quatro cantos, se dedicou a cuidar do marido estudante 24 horas, da casa e do trabalho na loja. Sonhos deixou guardados por um tempo em algum lugar da memória. O que mais queria era essa vida.

Para ler Drumond, é preciso ter vivido Camões, era o que mais ele gostava de recitar. Ela, fã da Fresno, nunca tinha entendido. Mas gostava daquela parte do Drumond que dizia “no meio do caminho tinha uma pedra”. Na sua vida várias pedras existiram. Algumas ainda estão por aqui, como essa que tenta agora tirar do caminho. Talvez a pior de todas, nem mesmo viver por quatro meses dentro do hospital tinha sido tão ruim, afinal, era criança e no fundo tinha gostado dos paparicos das enfermeiras e de ter a mãe todos os dias ao seu lado. Do acidente, recordava estar brincando na rua com os primos e levar um soco. Depois descobriu que havia sido atropelada pelo fiat do tio. Do desespero da vó que cuidava dos netos, das rezas e promessas da mãe e das vizinhas, do sumiço do tio envergonhado por tanto sofrimento tomou consciência quando adulta e o pai se permitiu contar o que tinha acontecido.

Dessa vez era diferente. A dor não era mais física. A única coisa igual era ela ter se dado conta depois de muito tempo. No dia em que ele falou que ela precisava ler mais e deixar essas bobagens de youtube não deu muita atenção, afinal, ele sempre estava rodeado de livros que pareceu muito natural esse desejo. Tampouco, lhe pareceu estranho o dia em que ele chamou a sua atenção na frente dos amigos quando trocou o nome de um escritor. O que valia era saber que o estava ajudando a realizar seu sonho de ser professor de uma universidade. O medo tomou conta quando ele arrancou o celular da mão dela e jogou no chão. Aquele celular tinha custado meses de trabalho. Naquele dia, bateu na casa dos pais pedindo ajuda. A mãe deu de ombros, o pai falou que era estresse, coisas do trabalho. Depois de uns dias, ele a convenceu a voltar com mais um poema:

Eu cantarei de amor tão docemente,

Por uns termos em si tão concertados,

Que dois mil acidentes namorados

Faça sentir ao peito que não sente.

Os dias foram de paz. Até o dia em que ela se atrasou na loja e chegou tarde para fazer a janta. Ele a esperou com a porta chaveada e não respondeu aos seus apelos para entrar. Depois de horas implorando, dormiu no carro. À colega de trabalho disse que tinha perdido a chave e o marido viajado, por chegar muito cedo e com a mesma roupa do dia anterior. Desde então, chegava em casa pontualmente às 19 horas. Nenhuma palavra sobre a noite passada no carro. O roxo no braço foi resultado de ter esquecido de comprar sua granola preferida. O corte na testa, a falta do xampú. Tudo era desculpado pela pressão que sofria no estágio probatório. Quando ela comprou o vestido novo que tanto havia namorado, soube que era hora de dar um fim àquilo. Às palavras de desagrado, foi acrescentada a tesoura que acabou com seu desejo de dançar a noite toda. “Isto não é coisa que mulher de um professor use. Quer me envergonhar na frente dos meus colegas? ” E acabou-se a noite dos sonhos. A decisão de deixar tudo para trás tornou-se realidade na manhã seguinte. Depois de uma noite sem dormir, ela, decidida, comunicou que estava indo embora. Não precisou de muitas palavras para a cólera tomar contar dele. Das palavras à ação foram segundos. O horror que se seguiu ainda lhe arrepiaria o corpo por muito tempo. Sirenes, gritos, dor. Tudo parecia acontecer em câmera lenta, desde o momento em que ele jogou suas roupas pela janela até o primeiro bofetão pareceu uma eternidade.

Parada no degrau, o corpo treme.

Pausas


Era domingo. O dia amanheceu lindo, nenhuma nuvem no céu e com o sol já brilhando desde muito cedo. Aquele dia tinha algo de diferente, talvez uma luz diferente ou uma energia? A claridade que entrava no quarto fez meus pensamentos se perderem na beleza do dia que começava. Devaneando, fui até a sala e abri a janela como todos os dias, mas com uma calma a mais, não tinha pressa, afinal não era nem 8 horas da manhã e a cidade ainda dormia. Mas nem toda a cidade. Quando abri o vidro da janela, um vento entre quente e frio invadiu meu corpo. Um arrepio de choque térmico, pensei. Ainda perdido em pensamentos matinais e na tentativa de mover o corpo para a cozinha e fazer um café, me deparei com aquela figura ao longe, que ao fixar melhor os olhos me dei conta de que eram duas figuras. Parecia uma cena de fotografia, pensei. E não tive dúvida, corri até o quarto ao lado, abri porta do armário e retirei a câmera fotográfica da mochila, voltei rápido para a janela, na corrida derrubei o vaso de flores que decorava a mesinha de canto. Vi a água penetrando no tapete. Depois limpo o estrago, pensei. Ao chegar de volta à janela, fixei a câmera no tripé e observei. Vi os dois sentados no chão, lado a lado, numa conversa que gostaria de estar participando pelas tantas risadas que se ouvia. Fiquei a imaginar de que estariam se divertindo e mais uma vez meus pensamentos voaram e foram parar naquela tarde em algum parque em que o pai empurrava o filho no balanço e o vento batendo no rosto o fazia gritar de felicidade, ou naquele dia em que foram com os amigos ao campinho ao lado da casa e se divertiram até a hora do jantar. Poderia não ser nada disso, apenas um cachorro que os atacou na longa caminhada que haviam feito até chegarem ali naquela calçada e que eles, astutamente, conseguiram se livrar. Naquele momento, vi que dividiam algo de comer. A distância não me permitia ver o que era e, claro, que já comecei a imaginar que seria um belo pedaço de bolo, ou um sanduíche dado com carinho por algum vizinho. Fiquei sem saber, porque não fui capaz de colocar o zoom da câmera a funcionar e descobrir o que saboreavam entre risos. Terminado o lanche, logo se levantaram, o pai pegou o carrinho e se pôs a caminhar, o menino seguiu ao seu lado. Agora meu pensamento se voltou para onde seria o fim da jornada, como passariam aquele dia? Quantas paradas ainda fariam até chegarem em casa? Conseguiriam alguma coisa para servir de renda naquela semana? Quem os estaria esperando? Absorto naquela imaginação não vi que já iam longe, voltei à realidade e me dei conta de que precisava registrar ao menos a caminhada dos dois. Afinal era domingo de dia dos pais e alguma lembrança eu precisava ter desse dia.

sábado, 13 de junho de 2020

Privilégio


Tenho o privilégio de conviver e ser inspirada por mulheres maravilhosas. Cresci vendo minha mãe ralar para ensinar aos filhos a realizarem seus desejos, sendo parceira do meu pai para tudo e tendo suas vontades respeitadas. Tenho primas e cunhadas que ensinam aos seus filhos e aos filhos dos outros a importância do respeito às diferenças. Tenho amigas que lutam todo dia para criar um mundo bom. Tenho amigos e amigas lésbicas, gays e de todas as cores do arco-íris que me ensinam que o importante é o querer. Tenho amigos que valorizam e apoiam incondicionalmente as mulheres de suas vidas. Tenho amigos e amigas negros, pobres, descapacitados que fazem deste país o que somos. Tenho e terei noras e talvez netas que não poderão ser desrespeitadas por serem mulheres. E é por toda essa gente que tenho certeza que não podemos retroceder nenhum milímetro em todas as conquistas, que ainda são poucas, de nossos direitos como cidadãs e cidadãos.
Ainda existem alguns e algumas que não entendem a importância da liberdade e do respeito aos direitos de cada um e é, especialmente, por esses que acredito que precisamos consolidar a democracia neste país e construir uma sociedade com diferenças e com liberdade de pensar diferente. (12/9/2018)

Gratidão


Minha amiga querida de 1900. Minha gratidão pela tua coragem, que permitiu que eu esteja aqui escrevendo e fazendo o que quero. Tenho que te contar que as lutas não foram em vão, nem a tua morte. Conseguimos muitas coisas nesse intervalo de tempo, podemos sair sozinhas, escolher como agir, podemos votar, muitas de nós podem viajar sozinhas, usar o corpo da forma como quiser, estamos presentes em todos os setores, contribuímos para o avanço da economia, da ciência, dos esportes, enfim, tivemos grandes conquistas.
Mas, também tenho que te dizer que ainda sentimos medo, ainda somos agredidas física e emocionalmente, ainda nos tratam como objeto. Em alguns lugares os pais ainda decidem com quem a filha pode casar, alguns pais estupram a filha para que vire mulher e não se apaixone por outra mulher, alguns namorados e maridos matam as companheiras porque se acham donos, algumas mulheres não se solidarizam com outras mulheres e apoiam esses atos, algumas mulheres defendem machistas e justificam os atos porque a mulher não agiu conforme o padrão social que lhe era esperado. Alguns homens não entendem a casa como sua e não lavam nem a louça, algumas pessoas entendem a casa como sinônimo de tarefa feminina. Em alguns lugares, os clitóris são arrancados das meninas porque é proibido sentir prazer. Em outros, mulheres ainda não têm direito a nada. E tenho que te contar que em quase todos os lugares as mulheres ganham menos que os homens.
Apesar de tudo, te digo, que estamos tratando bem do teu legado e tentamos nos manter firmes e fortes, unidas na luta para que as futuras mulheres não precisem escrever e viver o segundo parágrafo deste texto. O caminho é longo e meio nebuloso, mas seguimos sempre. Grata por teu exemplo! (8/3/2019)

Desejo


Desejo que ninguém te deseje um feliz dia da mulher. Desejo que todos os dias sejam teus. Desejo que quando te olhares no espelho saibas o quão importante és. Desejo que ninguém mande nos teus desejos. Desejo que possas usar a roupa que quiseres, a maquiagem que quiseres e que ninguém tente te convencer de isso é vulgar ou impróprio. Desejo que o teu jeito de ser não te rotule. Desejo que quando optares por não ter filhos ninguém diga: como não quer ter filho? Desejo que se optares por cuidar dos filhos e da casa ninguém diga: mas não vais trabalhar? Desejo que se quiseres agarrar uma profissão com todas as tuas forças ninguém diga: coitada, não encontrou um homem. Desejo que teu corpo seja tua propriedade e expô-lo não seja justificativa para agressão e morte. Desejo que possas sair à rua sem medo. Desejo que teu emprego não te escravize e te permita aproveitar as boas coisas da vida. Desejo que todas as tuas lutas sejam compreendidas e apoiadas. Desejo que tua capacidade não seja definida pelo que levas no meio das pernas. (8/3/2017)

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Queria


Queria acordar e descobrir que ninguém morreu, que pais não choram seus filhos, que filhos não choram seus pais. Queria acordar e descobrir que 594 congressistas aprovaram anos ilimitados de investimentos em educação, saúde e segurança. Queria acordar e descobrir que o povo foi para a rua comemorar e que a polícia militar festejou junto. Queria acordar e descobrir que a democracia de fato vive no meu país. Queria acordar e descobrir que meninas e mulheres saem tranquilas à rua sem ninguém para assediá-las. Queria acordar e descobrir que as crianças do meu país têm escola e educação da melhor qualidade. Queria acordar e descobrir que os idosos têm atendimento e cuidados especiais em todos os lugares. Queria acordar e descobrir que não é preciso grades e superfechaduras para ter segurança. Queria acordar e descobrir que todos os deuses são do bem. Queria acordar e descobrir que não é preciso sentir medo de ser morto por ser negro, gay, lésbica ou do morro. Queira acordar e descobrir tanta coisa. Apenas acordei.  (30/11/2016)

Desde quando somos bons?

Desde as pedras até a bomba atômica, cada civilização trata de impor a sua vontade à outra. Já destruímos cidades, países, impérios. Na ânsia de dominar acabamos com a história de vários povos. Desenvolvemos os mais variados e cruéis métodos de tortura. As mais poderosas armas de aniquilação. Criamos imperadores, ditadores, déspotas e todo tipo de piores governantes. Gostamos de ver a desgraça alheia, nos satisfazemos sabendo do sofrimento do outro e ainda julgamos: quem mandou andar por aquele lugar, aquela hora, daquele jeito. As tragédias só nos comovem quando atingem personalidades ou pessoas iguais a nós. Os diferentes merecem sofrer por serem o que são e acreditarem em algo que nós não acreditamos, por “escolherem” um país, um lugar do “mal”.

 A história anda em círculos e a cada tempo voltamos ao início e recomeçamos na pré-história. A ânsia de poder e dominação sempre existirá, algumas vezes, mais controlada, mas nunca extinta. Poderá ser disfarçada em períodos como esse, de festas natalinas e crenças de um ano melhor, onde todos somos bonzinhos e caridosos. Mas a nossa face mais cruel sempre estará lá, esperando para ser desperta. Porque nunca fomos bons. (20/12/2016)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Natal

Pela segunda vez tivemos a experiência de um natal em Córdoba. Por aqui, o Natal não é a festa mais importante, mas o dia dos reis magos, 6 de janeiro. O período coincide com as férias escolares de inverno, que acontecem entre 20 de dezembro a 8 de janeiro. A tradição de dar presentes no dia de reis começa a se modificar, algumas famílias também incorporam o papai noel no calendário e as crianças acabam ganhando dois presentes. A figura do “bom velhinho” não está muito presente ainda, raro encontrar um papai noel desfilando pelas ruas ou em lojas, o que se vê são muitos enfeites com luzes e objetos natalinos, pelo menos em Córdoba. O grande festejo é o desfile dos reis magos que acontece no dia 5 de janeiro. Crianças e adultos vão para as ruas esperar a “Cabalgata de los Reyes”, que distribuem muitos doces e brinquedos. Além da “Cabalgata” oficial, que passa pelas principais ruas da cidade, acontecem outras, com cortejo menor, nos bairros. Este ano, a chuva atrapalhou os desfiles e a principal foi cancelada. Outra diferença é que quase não existe panetone, nem chocolates com figuras natalinas. O doce da época é o roscón de reyes, um bolo recheado e decorado com frutas e frutos secos.









Eleições
As eleições para presidente e a situação da Catalunha agitaram os últimos meses do ano. A campanha eleitoral começou no início de dezembro com debates e propaganda eleitoral nos meios de comunicação e nas ruas. Não existe propaganda obrigatória, tampouco é obrigatório o voto. Por muitos anos, os espanhóis se acostumaram ao bipartidarismo entre o Partido Popular e o Partido Socialista Obrero Espanhol na alternância de poder, a partir do surgimento de Podemos e Ciudadanos o cenário eleitoral começou a mudar. E em essas eleições foi decretado o fim do bipartidarismo. Além desses quatro, concorreu à presidência de governo o partido Esquerda Unida. O que gerou uma situação singular. O candidato do PP foi eleito, mas ainda não pode governar, pois não obteve a maioria absoluta no Parlamento e ainda teve o pior resultado obtido por um partido vencedor nas urnas na história recente da democracia espanhola. Depois das eleições, todos os partidos com representação no Parlamento têm audiência com o rei para exporem suas propostas e preferências ao cargo de presidente de governo. Como na primeira rodada não houve consenso em apresentar um candidato, as conversas serão retomadas esta semana para então o rei enviar ao Parlamento o nome de um candidato para ser aprovado ou não. Aí começam as negociações para compor o governo, o partido que conseguir obter o maior número de votos de parlamentares irá governar independente de ter sido eleito pelo voto popular.
Além de todas as negociações para compor um novo governo, o futuro presidente terá que lidar com os independentistas catalãs que não poupam artimanhas para encaminhar o seu projeto de independência. A última jogada foi a renúncia à presidência de governo catalão do principal articulador do processo, Artur Más, acusado de corrupção. Para conseguir o apoio dos outros partidos independentistas, assumiu em seu lugar o ex-prefeito de Girona, Carles Puigdemont, que agora se empenha em seguir os passos de Más e aprovar o processo de independência.


Novidades
A décima primeira legislatura do Parlamento desde a retomada da democracia espanhola trouxe muitas novidades. A renovação se dá em idade, a maioria tem menos de 60 anos, e em atuação política, 60% dos deputados estreiam no Congresso. 
Pela primeira vez na história espanhola uma mulher negra foi eleita deputada. Rita Bosaho foi candidata pelo Podemos, trabalha na área da saúde e atua como ativista dos direitos humanos em Alicante.
Outra peculiaridade das eleições foi a presença de um bebê no dia da apresentação dos deputados e eleição do novo presidente do Congresso. Uma deputada esteve com o filho de seis meses de idade todo o tempo da sessão, o que gerou uma ampla discussão em todo o país, com programas nos meios de comunicação discutindo se foi apropriado ou não, além, claro, da série de charges e piadas nas redes sociais.


Fraudes e corrupção
As descobertas de corrupção e fraude são diárias e em todos os setores. A mais surpreendente e inacreditável é a de uma quadrilha que fraudava seguro de acidente de carro. A fraude consistia em usar mulheres grávidas que supostamente sofriam acidente de trânsito e abortavam devido ao acidente, só que o aborto havia sido provocado por uso de medicamento. Por enquanto, dez mulheres e seis homens foram presos e a fraude só foi descoberta porque as seguradoras desconfiaram do alto número de ocorrência do tipo na mesma região.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Verão e independência

O verão vai se despedindo aos poucos de Córdoba, deixando boas lembranças. Durante o dia é praticamente impossível sair de casa, assim, a vida noturna é extremamente movimentada. A cidade oferece várias atrações, além dos bares, sempre lotados. Um das opções é o Cine de Verano, cinema ao ar livre em cinco espaços da cidade, entre eles a Plaza de Toros. São apresentados todos os tipos de filmes, inclusive estreias.
Cine Plaza de Toros
Outro atrativo aos finais de semana é comer ao ar livre. Os encontros acontecem em dois lugares. Um no local onde se realiza a Feira da cidade no mês de maio, o estacionamento de terra do estádio do Córdoba. Ali se reúnem as famílias e amigos para comer churrasco ou alguma outra comida feita na hora. O outro espaço é gramado, para quem prefere um piquenique, as comidas já vão prontas de casa. E nada é ao improviso, vai praticamente a casa junto, mesas, cadeiras, pratos, talheres, tudo o que for preciso para passar uma noite muito agradável. A função acaba ao amanhecer. Para o dia, as opções são as piscinas públicas nos bairros, ou, o parque aquático a 30 quilômetros de Córdoba.
noite de piquenique
parque aquático
Espanha – Vários assuntos dominam os noticiários e as conversas. O principal deles é a eleição para a presidência regional da Cataluña, dia 27 deste mês, não pelas eleições, mas pela proposta de independência catalã e pelas acusações de corrupção que está envolvido o presidente do governo Regional da Catalunha e principal líder da coalisão que tem como proposta de governo, caso sejam eleitos, a independência. A proposta tem gerado tanto medo no restante do país que as mais diferentes situações são projetadas. Os programas de debate na tv, diariamente, apresentam o que aconteceria no caso de um novo país ser formado. Como ficaria a economia, os bancos com sede na Cataluña dizem claramente que se transferirão, as grandes empresas divulgaram nota conjunta contrária à independência apontando os principais prejuízos; o que aconteceria com o futebol e os demais esportes; a igreja católica clama aos fieis para que rezem e votem contra os independentistas. Enfim, todo o país está pendente do que as urnas apresentarão no próximo domingo.
futuro da Cataluña nas urnas
Outro assunto na pauta é a crescente chegada de refugiados sírios na Europa. No início, além das informações sobre a terrível rotina dos que tentam uma nova vida, as notícias também eram mais opinativas, em alguns casos de crítica à inoperância da comunidade europeia em abrir as fronteiras e acolher mais refugiados. A opinião já perde força, mas as imagens não deixam de impactar. Um pouco do que é notícia sobre os refugiados: (http://www.elmundo.es/internacional/2015/08/27/55df62e1268e3e251e8b45a4.html)

O que não sai de pauta são as denúncias de corrupção, sejam de políticos ou empresários, um novo caso aparece todo dia. E em todas as instâncias de poder e matizes políticas. 

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

um pouco de férias

Vinte e quatro dias, três países, cinco mil trezentos e sessenta e nove quilômetros. Assim poderiam ser resumidas nossas férias de verão. Mas muito pouco para tudo o que vivemos e conhecemos nesses dias. Planejamos uma viagem a Roma conhecendo a costa mediterrânea. Antes de começar a contar da viagem um adendo: mudamos de apartamento no mesmo dia que iniciamos a viagem, isso gerou alguns percalços como esquecer o cabo para baixar as fotos, a erva-mate e a garrafa térmica. 
serra andaluza
Saímos de Córdoba na sexta-feira, 10 de julho, logo após o meio-dia em direção à praia de Denia, em Alicante, nossa primeira parada. O caminho de quinhentos e poucos quilômetros foi mudando aos poucos, começando pelas serras Andaluzas e suas plantações de oliveiras, adentrando em Castilla La Mancha com seus mistérios de Don Quijote. Passamos por cidadezinhas que a cada pouco te faziam lembrar as aventuras contadas por Miguel de Cervantes. Era só deixar a imaginação voar um pouquinho para ver passar Don Quijote e seu fiel escudeiro, Sancho Panza. 
na rota de Don Quijote






Logo entramos na Comunidade Valenciana e a surpresa com a imensidão dos pomares de laranja valencia. Aos poucos, a costa começava a aparecer e íamos acompanhando o mar ao mesmo tempo em que o dia ia indo embora. Chegamos ao camping passado das dez da noite. A primeira comprovação ao começar a montar a barraca era que tínhamos deixado o suporte de luz, o que foi gentilmente resolvido pelo nosso vizinho, que nos ofereceu a luz até terminarmos a montagem. A segunda descoberta foi muito boa: o restaurante do camping e não só porque estávamos mortos de fome, mas porque a comida era deliciosa, umas das melhores que experimentei na Espanha, e o preço melhor ainda. A dona, uma venezuelana, deve ter sido cozinheira a vida toda, além de ser uma simpatia de pessoa. Passamos quatro dias aproveitando o calor da água do Mediterrâneo e a tranquilidade da pequena Denia.
caminho para Denia






praia de Denia, Alicante






A segunda parada foi em Cambrils, na região de Tarragona. Pela estrada seguíamos vendo os laranjais e o interessante, plantados em degraus para aproveitar o relevo montanhoso. Deixamos a Comunidade Valenciana e entramos na Cataluña. Para encontrar a praia, a primeira dificuldade foi entender as placas indicativas, todas em catalão. Depois de encontrar o camping foi só desfrutar da praia. 
laranjeiras em degraus
chegando na Cataluña

Cambrils






Deixamos a Espanha e começamos a entrar na França. Aí encontramos nossa amiga Vanessa, que nos salvou a vida com o francês e nos fez companhia o restante da viagem. Entramos em Montpellier para buscá-la na estação de trem e depois de umas dez voltas na cidade (meio perdidos) saímos em busca de um camping. A partir da França, não tínhamos previsão de quantos dias ficar em cada lugar e tampouco onde íamos parar, buscávamos hospedagem conforme íamos decidindo, o que gerou algumas dificuldades, mas no final o resultado foi ótimo.
chegando na França

 Montpellier
Depois de alguns telefonemas, da Vanessa, conseguimos um bangalô muito legal em um camping em Palavas Le Flots, mas só podíamos ficar dois dias. Subimos um pouco mais e paramos em Les Issambres, na região da Costa Azul, um dos lugares mais bonito da viagem. A paisagem começou a apresentar novidades, surgiam as videiras e, por consequência, as vinícolas. Também as primeiras lavouras de girassol.
Palavas Les Flots










Les Issambres é uma praia pequena rodeada de penhascos, e, ao contrário dos lugares anteriores, começamos a ouvir outros idiomas que não só o local. Uma praia bem familiar, muitas crianças e muita gente lendo na praia. As famílias vão passar o dia e levam tudo o que é necessário, incluindo livros. O lugar nos rendeu uma das melhores experiências da viagem: piquenique na praia no final da tarde. 
Les Issambres





Aproveitamos também para conhecer Saint Tropez, uma antiga vila de pescadores que hoje só é famosa pela quantidade de iates e concentração de dinheiro por metro quadrado. Um lugar nada demais se tirarmos os barcos e as mansões de famosos e milionários. Mas o passeio de barco pela enseada valeu lindas imagens.








A próxima parada seria na Itália, mas antes de chegarmos lá paramos em Cannes, uma linda cidade que merece uma visita mais prolongada. A paisagem da serra na estrada vicinal que pegamos para chegar a Cannes é espetacular, a estrada cheia de curvas e penhascos dá uma emoção a mais ao trajeto.
caminho para Cannes





Palácio dos Festivais

Cannes





Continuamos pela costa mediterrânea em direção a Pisa, nossa primeira parada na Itália. A recepção em terras italianas não poderia ser melhor. Logo ao cruzar a fronteira em direção a Genova a rádio italiana começa a tocar Tribalistas. Entrar na Itália foi uma sensação muito estranha, me emocionei ao lembrar meus antepassados que saíram do país e me permitiram conhecer a sua terra. Entramos num longo caminho de túneis e viadutos, uma paisagem belíssima, com cidades incrustadas nas rochas e sempre com a torre de uma igreja à vista. Continuavam as lavouras de girassóis. 

caminho para Pisa



Pisa
Em Pisa, outra surpresa, guaraná antárctica no minimercado da esquina de casa, garantimos pizza com guaraná na segunda noite. Na primeira fomos comer pizza num restaurante da Piazza Vittorio Emanuele II. Ao contrário de tudo o que li e ouvi, as pizzas italianas foram as melhores que comi até hoje. Pisa também nos ofereceu a primeira praia sem areia. A Marina di Pisa, onde fomos, é uma praia cheia de pedrinhas brancas, difícil de caminhar, mas com um lindo por do sol.
Pisa



Marina di Pisa


Rio Arno

Marina di Pisa

Piazza dei Miracoli

Marina di Pisa

Torre Pendente


Piazza dei Miracoli


Então chegou a hora de cruzar as portas de Roma. Chegamos à capital no meio da tarde de uma quinta-feira. Confesso que a princípio a ideia de conhecer Roma não me encantou, prefiro as cidades do interior, mas como não se apaixonar por aquela cidade? Ainda mais depois de conhecer o lugar que iríamos ficar. Optamos por uma casa, reservada pelo Airbnb. E o lugar nos surpreendeu, uma villa num bairro a vinte quilômetros do centro, parecia que estávamos em qualquer cidade do interior, no alto de uma colina, com o rio Tevere passando ao lado. O primeiro passeio foi para conhecer o Coliseo e seu entorno. Saímos quase ao meio dia de casa, depois de calcular distâncias e horários do metrô, achamos que a melhor opção seria ir de carro e deixá-lo em um estacionamento. Qual foi a surpresa quando depois de uma volta a procura do estacionamento que tínhamos mapeado, encontramos uma vaga na rua. A via di Monte Brianzo estava a quatro quilômetros do Coliseo e lá fomos nós numa bela caminhada com muito calor romano. Como não tínhamos comprado entradas antecipadas, estávamos preparados para enfrentar uma longa espera até entrar, mas as expectativas não se confirmaram, em menos de vinte minutos estávamos dentro do Monumento.
vista de casa, rio Tevere








Piazza Venezia

vista do Coliseo











O segundo dia foi dedicado ao Vaticano. Também tivemos sorte em achar estacionamento na rua e nem foi preciso procurar, era sábado e quase não tinha movimento nas ruas. Dessa vez, a espera foi um pouco maior na fila, até passar o detector de metais, mas não mais que quarenta minutos. Depois da visita, passamos pelo correio do Vaticano para enviar cartões para as vovós. E antes de seguir caminhando pelas ruas tranquilas de Roma, uma parada para mais uma pizza. Em uma praça na beira do rio uma cena insólita, ensaio fotográfico de um casamento chinês, noivos, pais, padrinhos e alguns convidados seguiam as ordens dos fotógrafos gerando diversão do público que assistia. Na volta para casa, a solução de um problema. Fomos atrás de erva-mate em um mercado público do outro lado da cidade. O Nuovo Mercato Esquilino lembra os piores dias do mercado público de Porto Alegre, sujo e fedido. Mas encontramos erva, paraguaia, e garantimos uns mates vendo o por do sol no terraço da casa e mais alguns durante a viagem.










Basílica

guarda do Papa



Pietá
Corte di Cassazione






Domingo pela manhã chegava ao fim a primeira parte da aventura. Era hora de começar a voltar para casa. Tínhamos mais de dois mil quilômetros para fazer e alguns lugares a conhecer. 
não era F1, mas havia três ferraris na pista
O primeiro foi Florença, uma cidade encantadora. Aí tivemos o primeiro sufoco, como não conseguíamos lugar para ficar resolvemos tentar algo quando chegássemos lá. Por sorte, na primeira avenida que entramos tinha vaga em um hostal. A razão de não haver quase disponibilidade de hospedagem era o Festival de Orquestra Jovem, que acontecia na cidade. Do hostal saímos a conhecer a cidade a pé. Na volta, exaustos, comemos a melhor massa italiana! Nos despedimos da Itália com a lembrança da amabilidade e simpatia dos italianos.















visão do alto da cidade



Duomo
Antes de chegar à Marseille, na França, uma espiadinha rápido no Principado de Monaco.








Entramos em Marseille quase dez da noite e fomos surpreendidos mais uma vez com o apartamento que escolhemos, extremamente acolhedor, e com a atenção do proprietário. Em geral, os restaurantes na França começam e terminam cedo da noite os serviços. Então, depois de instalados saímos à procura de um lugar onde comer. O dono do apartamento nos acompanhou na busca e durante o passeio ainda indicou onde encontrar o melhor pão, o melhor açougue e as várias opções do bairro. No dia seguinte, um passeio pelas longas ladeiras da cidade nos levou até a igreja de Notre Dame de La Garde, com uma visão magnífica da cidade.















Restavam mais duas paradas antes de chegar em casa. A primeira foi logo ao cruzar a fronteira da Espanha. Voltamos para as praias, dessa vez em Roses, Girona. Apesar de estar em terras espanholas, a impressão era de um território da França, de tantas vozes francesas que ouvíamos. Só tivemos certeza de estar na Espanha pela maravilhosa paella que comemos em um restaurante a beira da praia. Pela primeira vez, o tempo se apresentou nublado e de noite uma bela chuva para acalmar um pouco o calor, mas que levou também o sol. 

As kombis chamam a atenção nas estradas da França


praia de Roses



Andamos um pouco mais e chegamos em Moncofa, na região de Valencia. Encontramos mais uma praia com pedras. Uma paisagem muito bonita, mas com poucas opções de banho, apenas em uma praia próxima foi possível aproveitar o dia meio ensolarado depois de uma bela tormenta de vento e chuva que nos recebeu na primeira noite.
Comunidade Valenciana

Roses

depois do temporal, bandeira vermelha








Saímos de Moncofa ao meio-dia para o destino final. A paisagem da estrada começa a mudar, saiam os pés de laranjeira e entravam as oliveiras, estávamos na Andalucía novamente. Como falei no início trocamos de apartamento e ao chegar ao novo fomos recebidos com uma lembrança especial de boas vindas deixada pelos nossos amigos Cristina e Michelangelo. Ainda sobre amigos, também recebemos o apoio dos amigos Antonio e Maíra que cuidaram do nosso carro, com algumas coisas da mudança, enquanto estávamos fora. Chegamos em Córdoba no final da tarde a tempo de aproveitar o calor e jantar no nosso restaurante preferido, o Morilles Patanegra. Fim de férias, hora de trabalhar para garantir as próximas!

pomares de laranjas

ainda em Valencia

a caminho da Andalucía

estamos em Córdoba