Minha amiga querida de 1900. Minha gratidão pela tua
coragem, que permitiu que eu esteja aqui escrevendo e fazendo o que quero.
Tenho que te contar que as lutas não foram em vão, nem a tua morte. Conseguimos
muitas coisas nesse intervalo de tempo, podemos sair sozinhas, escolher como
agir, podemos votar, muitas de nós podem viajar sozinhas, usar o corpo da forma
como quiser, estamos presentes em todos os setores, contribuímos para o avanço
da economia, da ciência, dos esportes, enfim, tivemos grandes conquistas.
Mas, também tenho que te dizer que ainda sentimos medo,
ainda somos agredidas física e emocionalmente, ainda nos tratam como objeto. Em
alguns lugares os pais ainda decidem com quem a filha pode casar, alguns pais
estupram a filha para que vire mulher e não se apaixone por outra mulher,
alguns namorados e maridos matam as companheiras porque se acham donos, algumas
mulheres não se solidarizam com outras mulheres e apoiam esses atos, algumas
mulheres defendem machistas e justificam os atos porque a mulher não agiu
conforme o padrão social que lhe era esperado. Alguns homens não entendem a
casa como sua e não lavam nem a louça, algumas pessoas entendem a casa como
sinônimo de tarefa feminina. Em alguns lugares, os clitóris são arrancados das meninas
porque é proibido sentir prazer. Em outros, mulheres ainda não têm direito a
nada. E tenho que te contar que em quase todos os lugares as mulheres ganham
menos que os homens.
Apesar de tudo, te digo, que estamos tratando bem do teu
legado e tentamos nos manter firmes e fortes, unidas na luta para que as
futuras mulheres não precisem escrever e viver o segundo parágrafo deste texto.
O caminho é longo e meio nebuloso, mas seguimos sempre. Grata por teu exemplo! (8/3/2019)
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