sábado, 13 de junho de 2020

Gratidão


Minha amiga querida de 1900. Minha gratidão pela tua coragem, que permitiu que eu esteja aqui escrevendo e fazendo o que quero. Tenho que te contar que as lutas não foram em vão, nem a tua morte. Conseguimos muitas coisas nesse intervalo de tempo, podemos sair sozinhas, escolher como agir, podemos votar, muitas de nós podem viajar sozinhas, usar o corpo da forma como quiser, estamos presentes em todos os setores, contribuímos para o avanço da economia, da ciência, dos esportes, enfim, tivemos grandes conquistas.
Mas, também tenho que te dizer que ainda sentimos medo, ainda somos agredidas física e emocionalmente, ainda nos tratam como objeto. Em alguns lugares os pais ainda decidem com quem a filha pode casar, alguns pais estupram a filha para que vire mulher e não se apaixone por outra mulher, alguns namorados e maridos matam as companheiras porque se acham donos, algumas mulheres não se solidarizam com outras mulheres e apoiam esses atos, algumas mulheres defendem machistas e justificam os atos porque a mulher não agiu conforme o padrão social que lhe era esperado. Alguns homens não entendem a casa como sua e não lavam nem a louça, algumas pessoas entendem a casa como sinônimo de tarefa feminina. Em alguns lugares, os clitóris são arrancados das meninas porque é proibido sentir prazer. Em outros, mulheres ainda não têm direito a nada. E tenho que te contar que em quase todos os lugares as mulheres ganham menos que os homens.
Apesar de tudo, te digo, que estamos tratando bem do teu legado e tentamos nos manter firmes e fortes, unidas na luta para que as futuras mulheres não precisem escrever e viver o segundo parágrafo deste texto. O caminho é longo e meio nebuloso, mas seguimos sempre. Grata por teu exemplo! (8/3/2019)

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