Mãe, não há outra opção. A senhora vai ter que sair. Como que não há opção? Claro que há. Passei a vida inteira te ensinando que sempre há algo a ser feito e agora tu vens com essa história de que não tenho o que fazer a não ser aceitar o fato? Foi pra isso que te formei engenheiro? Mãe, eu sou engenheiro químico. Ah, tudo igual, tu deves saber o que fazer. Vem cá, olha essa foto. Lembra da tia Júlia? Essa foi a última foto que tenho dela. Foi um pouco antes dela pegar aquele maldito avião. Depois daquilo nunca mais coloquei meu corpo naqueles monstros. Ela era tão linda, não? Mãe, eu não conheci a tia Júlia. Adorava comer laranja ali na varanda pegando um solzinho como ela falava. Eu falei pra ela ficar mais um tempo aqui com a gente, não tinha nada pra fazer em São Paulo, por que eu não insisti um pouco mais? Mas ela era teimosa que só, tu sabes, né? Saíste igualzinho. Mãe, eu não conheci a tia Júlia. Um dia, ela embestou de comprar um casaco pro teu avô. Queria que ele se vestisse como um apresentador da tv que ela achava lindo. Procurou em toda a cidade e me fez ir junto. Não existia o tamanho do teu avô, também naquela época a gente tinha só cinco lojas que vendiam roupa aqui na cidade. Mesmo assim, ela comprou um, claro que ficou grande, mas ela fez teu avô usar. E ficava dizendo: paizinho, o senhor ficou lindo com esse casaco. Era muito teimosa. E quando ela decidiu que iria embora pra fazer o tal curso de gastronomia? Lembra como teu avô quando enlouqueceu? Mãe, eu não conheci a tia Júlia! De onde ela achou aquela faculdade até hoje ninguém sabe. E nem vai saber, mãe! Mas dizia que era o sonho da vida dela, ser dona de um restaurante, e queria ir pra Paris, aquela doida. Imagina ir pra Paris e nem sabia falar francês. Dizia que lá estavam os melhores cozinheiros. Pobrezinha, nunca conseguiu. Vem, mãe, vamos começar a encaixotar esses pratos, a senhora precisa organizar por área, colocar as coisas da cozinha em um lado, do quarto em outro, pra a senhora achar mais fácil na hora de colocar no lugar. Já te disse que não vou a lugar nenhum, essa gente que arrume um jeito de assegurar o prédio, por que não fazem outra parede pra sustentar essas aí? Mãe, que ideia mais doida, ia cair tudo igual, a senhora tem cada uma. Vamos lá, me ajuda a separar isso logo, preciso voltar pro trabalho. De noite venho pra gente terminar, tá bem? Tu lembras o dia que a vizinha veio aqui reclamar do barulho? Mãe, eu não conheci a tia Júlia!! Teu avô tinha acabado de comprar a eletrola e a tia Júlia resolveu chamar as amigas para ouvirem música, me lembro como se fosse hoje. Além de ouvirem no último volume, ainda dançavam, às dez da noite. A dona Eulália não conseguia dormir, coitada, começava a trabalhar de madrugada no hospital e acordou com aquela barulheira do Elvis. E a tua tia bem tranquila disse pra ela entrar e ainda ofereceu um ponche pra dona Eulália. Sorte que teu avô ainda não tinha chegado do trabalho. Olha essa aqui, tia Júlia devia ter uns 15 anos, né? Mãe, eu não conheci a tia Júlia!!! Sim, isso, me lembro que fomos na casa da minha vó lá no interior e na volta paramos pra comprar melancia e melão na beira da estrada. Teu avô ainda tinha aquele carro verde claro, como era mesmo o nome? Não consigo lembrar, é tão antigo, acho que nem tem mais por aí. Corcel, mãe. Isso mesmo, era tão bom quando a gente saia com ele, íamos eu e teus quatro tios atrás, o vô e a vó na frente com a tia Júlia no colo, depois que a vovó morreu, teu avô se desgostou e deixou de dirigir, nem sei o que ele fez com o carro. Mãe, para de olhar essas fotos e vem me ajudar. Aí que tanta pressa, eles que esperem um pouco, não caiu até agora, não vai ser hoje.
Fora da minha vida (*)
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*Teu cheiro ainda impregnado em todos os meus poros Teu pulôver em tom
esverdeado na prateleira do roupeiro Teu livro sobre Fidel ...
Há 7 meses
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