Era domingo. O dia amanheceu lindo, nenhuma nuvem no céu e com o sol já brilhando desde muito cedo. Aquele dia tinha algo de diferente, talvez uma luz diferente ou uma energia? A claridade que entrava no quarto fez meus pensamentos se perderem na beleza do dia que começava. Devaneando, fui até a sala e abri a janela como todos os dias, mas com uma calma a mais, não tinha pressa, afinal não era nem 8 horas da manhã e a cidade ainda dormia. Mas nem toda a cidade. Quando abri o vidro da janela, um vento entre quente e frio invadiu meu corpo. Um arrepio de choque térmico, pensei. Ainda perdido em pensamentos matinais e na tentativa de mover o corpo para a cozinha e fazer um café, me deparei com aquela figura ao longe, que ao fixar melhor os olhos me dei conta de que eram duas figuras. Parecia uma cena de fotografia, pensei. E não tive dúvida, corri até o quarto ao lado, abri porta do armário e retirei a câmera fotográfica da mochila, voltei rápido para a janela, na corrida derrubei o vaso de flores que decorava a mesinha de canto. Vi a água penetrando no tapete. Depois limpo o estrago, pensei. Ao chegar de volta à janela, fixei a câmera no tripé e observei. Vi os dois sentados no chão, lado a lado, numa conversa que gostaria de estar participando pelas tantas risadas que se ouvia. Fiquei a imaginar de que estariam se divertindo e mais uma vez meus pensamentos voaram e foram parar naquela tarde em algum parque em que o pai empurrava o filho no balanço e o vento batendo no rosto o fazia gritar de felicidade, ou naquele dia em que foram com os amigos ao campinho ao lado da casa e se divertiram até a hora do jantar. Poderia não ser nada disso, apenas um cachorro que os atacou na longa caminhada que haviam feito até chegarem ali naquela calçada e que eles, astutamente, conseguiram se livrar. Naquele momento, vi que dividiam algo de comer. A distância não me permitia ver o que era e, claro, que já comecei a imaginar que seria um belo pedaço de bolo, ou um sanduíche dado com carinho por algum vizinho. Fiquei sem saber, porque não fui capaz de colocar o zoom da câmera a funcionar e descobrir o que saboreavam entre risos. Terminado o lanche, logo se levantaram, o pai pegou o carrinho e se pôs a caminhar, o menino seguiu ao seu lado. Agora meu pensamento se voltou para onde seria o fim da jornada, como passariam aquele dia? Quantas paradas ainda fariam até chegarem em casa? Conseguiriam alguma coisa para servir de renda naquela semana? Quem os estaria esperando? Absorto naquela imaginação não vi que já iam longe, voltei à realidade e me dei conta de que precisava registrar ao menos a caminhada dos dois. Afinal era domingo de dia dos pais e alguma lembrança eu precisava ter desse dia.
Fora da minha vida (*)
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*Teu cheiro ainda impregnado em todos os meus poros Teu pulôver em tom
esverdeado na prateleira do roupeiro Teu livro sobre Fidel ...
Há 7 meses

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