Parada no degrau da porta daquela casa que já tinha deixado de ser sua há muito tempo, o corpo tremia. Lembrava do que a mãe sempre falou: “arruma um marido como seu pai”. Tinha arrumado bem mais. Ao contrário do pai, seu marido era um homem que sabia tudo da vida e das letras. Assim ele a conquistou ao dizer no ouvido aquela frase que ecoa até hoje: “amor é fogo que arde sem se ver”. Nunca tinha escutado coisa mais linda. Lembrava das aulas de literatura na escola e de como sua professora se esforçava para fazer aquela classe de 40 alunos se interessar um pouco pelos versos escritos no quadro verde. Aquele dia em que tentou vender um casaco de veludo marrom marcou o início de sua história de amor mais real. Ele precisava apresentar um trabalho na faculdade, ela ganhar a comissão do dia. No final, os dois se encontraram no bar da esquina e acabaram a noite no pequeno quarto que ela dividia com a amiga. Era o começo de muitos dias de encantamento. Enquanto ele se preparava para concluir o mestrado, ela juntava dinheiro para viajar pelo mundo. Foram muitos encontros depois do trabalho, muitos chopes e batatas fritas divididos no mesmo bar do primeiro dia. Até que ele encontrou o motivo para convidá-la a dividir a mesma cama, tinha sido aprovado para uma bolsa de doutorado e poderia garantir o aluguel para os dois. Ela, contente, correu contar para a mãe, que espalhou pela vizinhança: minha filha se casa com um doutor. A alegria era geral. Por quatro anos, ela esqueceu seus planos de conhecer os quatro cantos, se dedicou a cuidar do marido estudante 24 horas, da casa e do trabalho na loja. Sonhos deixou guardados por um tempo em algum lugar da memória. O que mais queria era essa vida.
Para ler
Drumond, é preciso ter vivido Camões, era o que mais ele gostava de recitar.
Ela, fã da Fresno, nunca tinha entendido. Mas gostava daquela parte do Drumond que
dizia “no meio do caminho tinha uma pedra”. Na sua vida várias pedras
existiram. Algumas ainda estão por aqui, como essa que tenta agora tirar do
caminho. Talvez a pior de todas, nem mesmo viver por quatro meses dentro do
hospital tinha sido tão ruim, afinal, era criança e no fundo tinha gostado dos
paparicos das enfermeiras e de ter a mãe todos os dias ao seu lado. Do
acidente, recordava estar brincando na rua com os primos e levar um soco.
Depois descobriu que havia sido atropelada pelo fiat do tio. Do desespero da vó
que cuidava dos netos, das rezas e promessas da mãe e das vizinhas, do sumiço
do tio envergonhado por tanto sofrimento tomou consciência quando adulta e o
pai se permitiu contar o que tinha acontecido.
Dessa vez
era diferente. A dor não era mais física. A única coisa igual era ela ter se
dado conta depois de muito tempo. No dia em que ele falou que ela precisava ler
mais e deixar essas bobagens de youtube não deu muita atenção, afinal, ele
sempre estava rodeado de livros que pareceu muito natural esse desejo.
Tampouco, lhe pareceu estranho o dia em que ele chamou a sua atenção na frente
dos amigos quando trocou o nome de um escritor. O que valia era saber que o
estava ajudando a realizar seu sonho de ser professor de uma universidade. O
medo tomou conta quando ele arrancou o celular da mão dela e jogou no chão.
Aquele celular tinha custado meses de trabalho. Naquele dia, bateu na casa dos
pais pedindo ajuda. A mãe deu de ombros, o pai falou que era estresse, coisas
do trabalho. Depois de uns dias, ele a convenceu a voltar com mais um poema:
Eu cantarei
de amor tão docemente,
Por uns
termos em si tão concertados,
Que dois mil
acidentes namorados
Faça sentir
ao peito que não sente.
Os dias foram de paz. Até o dia em que ela se atrasou na loja e chegou tarde para fazer a janta. Ele a esperou com a porta chaveada e não respondeu aos seus apelos para entrar. Depois de horas implorando, dormiu no carro. À colega de trabalho disse que tinha perdido a chave e o marido viajado, por chegar muito cedo e com a mesma roupa do dia anterior. Desde então, chegava em casa pontualmente às 19 horas. Nenhuma palavra sobre a noite passada no carro. O roxo no braço foi resultado de ter esquecido de comprar sua granola preferida. O corte na testa, a falta do xampú. Tudo era desculpado pela pressão que sofria no estágio probatório. Quando ela comprou o vestido novo que tanto havia namorado, soube que era hora de dar um fim àquilo. Às palavras de desagrado, foi acrescentada a tesoura que acabou com seu desejo de dançar a noite toda. “Isto não é coisa que mulher de um professor use. Quer me envergonhar na frente dos meus colegas? ” E acabou-se a noite dos sonhos. A decisão de deixar tudo para trás tornou-se realidade na manhã seguinte. Depois de uma noite sem dormir, ela, decidida, comunicou que estava indo embora. Não precisou de muitas palavras para a cólera tomar contar dele. Das palavras à ação foram segundos. O horror que se seguiu ainda lhe arrepiaria o corpo por muito tempo. Sirenes, gritos, dor. Tudo parecia acontecer em câmera lenta, desde o momento em que ele jogou suas roupas pela janela até o primeiro bofetão pareceu uma eternidade.
Parada no
degrau, o corpo treme.
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