Aquele dia o sol resolveu castigar de verdade os
caminhantes. Depois de muito andar e admirar toda a beleza daquela cidade
finalmente achei um parque. Acabei de tomar o pouco de água que restava na
garrafa e fui à procura de um lixo onde colocá-la e de um banco para sentar.
Encontrei os dois no mesmo lugar. Tirei os tênis, fechei os olhos e deixei a
grama fazer o seu trabalho. Uma sensação estranha começou a me perturbar, abri
os olhos e a vi me olhando fixamente. Na hora pensei: Cadê a máquina? Estava
ali ao lado. Devolvi o olhar e ela sorriu, como quem não quer nada estacionou o
carro cheio de recicláveis, sentou-se ao meu lado e desatou a falar. Contou a
tristeza da vida que tinha em seu país antes de chegar aqui, da falta de tudo, da
morte, da difícil travessia de barco no Mediterrâneo revolto, de não ter
ninguém a quem sentir saudade. Quando eu já estava sem fôlego, sorriu de novo e
me disse: agora estou feliz, tenho com o que trabalhar. E assim como tinha
chegado, se foi. A mim só restou lavar o banco com as lágrimas.
Fora da minha vida (*)
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*Teu cheiro ainda impregnado em todos os meus poros Teu pulôver em tom
esverdeado na prateleira do roupeiro Teu livro sobre Fidel ...
Há 7 meses
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