sábado, 13 de junho de 2020

Privilégio


Tenho o privilégio de conviver e ser inspirada por mulheres maravilhosas. Cresci vendo minha mãe ralar para ensinar aos filhos a realizarem seus desejos, sendo parceira do meu pai para tudo e tendo suas vontades respeitadas. Tenho primas e cunhadas que ensinam aos seus filhos e aos filhos dos outros a importância do respeito às diferenças. Tenho amigas que lutam todo dia para criar um mundo bom. Tenho amigos e amigas lésbicas, gays e de todas as cores do arco-íris que me ensinam que o importante é o querer. Tenho amigos que valorizam e apoiam incondicionalmente as mulheres de suas vidas. Tenho amigos e amigas negros, pobres, descapacitados que fazem deste país o que somos. Tenho e terei noras e talvez netas que não poderão ser desrespeitadas por serem mulheres. E é por toda essa gente que tenho certeza que não podemos retroceder nenhum milímetro em todas as conquistas, que ainda são poucas, de nossos direitos como cidadãs e cidadãos.
Ainda existem alguns e algumas que não entendem a importância da liberdade e do respeito aos direitos de cada um e é, especialmente, por esses que acredito que precisamos consolidar a democracia neste país e construir uma sociedade com diferenças e com liberdade de pensar diferente. (12/9/2018)

Gratidão


Minha amiga querida de 1900. Minha gratidão pela tua coragem, que permitiu que eu esteja aqui escrevendo e fazendo o que quero. Tenho que te contar que as lutas não foram em vão, nem a tua morte. Conseguimos muitas coisas nesse intervalo de tempo, podemos sair sozinhas, escolher como agir, podemos votar, muitas de nós podem viajar sozinhas, usar o corpo da forma como quiser, estamos presentes em todos os setores, contribuímos para o avanço da economia, da ciência, dos esportes, enfim, tivemos grandes conquistas.
Mas, também tenho que te dizer que ainda sentimos medo, ainda somos agredidas física e emocionalmente, ainda nos tratam como objeto. Em alguns lugares os pais ainda decidem com quem a filha pode casar, alguns pais estupram a filha para que vire mulher e não se apaixone por outra mulher, alguns namorados e maridos matam as companheiras porque se acham donos, algumas mulheres não se solidarizam com outras mulheres e apoiam esses atos, algumas mulheres defendem machistas e justificam os atos porque a mulher não agiu conforme o padrão social que lhe era esperado. Alguns homens não entendem a casa como sua e não lavam nem a louça, algumas pessoas entendem a casa como sinônimo de tarefa feminina. Em alguns lugares, os clitóris são arrancados das meninas porque é proibido sentir prazer. Em outros, mulheres ainda não têm direito a nada. E tenho que te contar que em quase todos os lugares as mulheres ganham menos que os homens.
Apesar de tudo, te digo, que estamos tratando bem do teu legado e tentamos nos manter firmes e fortes, unidas na luta para que as futuras mulheres não precisem escrever e viver o segundo parágrafo deste texto. O caminho é longo e meio nebuloso, mas seguimos sempre. Grata por teu exemplo! (8/3/2019)

Desejo


Desejo que ninguém te deseje um feliz dia da mulher. Desejo que todos os dias sejam teus. Desejo que quando te olhares no espelho saibas o quão importante és. Desejo que ninguém mande nos teus desejos. Desejo que possas usar a roupa que quiseres, a maquiagem que quiseres e que ninguém tente te convencer de isso é vulgar ou impróprio. Desejo que o teu jeito de ser não te rotule. Desejo que quando optares por não ter filhos ninguém diga: como não quer ter filho? Desejo que se optares por cuidar dos filhos e da casa ninguém diga: mas não vais trabalhar? Desejo que se quiseres agarrar uma profissão com todas as tuas forças ninguém diga: coitada, não encontrou um homem. Desejo que teu corpo seja tua propriedade e expô-lo não seja justificativa para agressão e morte. Desejo que possas sair à rua sem medo. Desejo que teu emprego não te escravize e te permita aproveitar as boas coisas da vida. Desejo que todas as tuas lutas sejam compreendidas e apoiadas. Desejo que tua capacidade não seja definida pelo que levas no meio das pernas. (8/3/2017)

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Queria


Queria acordar e descobrir que ninguém morreu, que pais não choram seus filhos, que filhos não choram seus pais. Queria acordar e descobrir que 594 congressistas aprovaram anos ilimitados de investimentos em educação, saúde e segurança. Queria acordar e descobrir que o povo foi para a rua comemorar e que a polícia militar festejou junto. Queria acordar e descobrir que a democracia de fato vive no meu país. Queria acordar e descobrir que meninas e mulheres saem tranquilas à rua sem ninguém para assediá-las. Queria acordar e descobrir que as crianças do meu país têm escola e educação da melhor qualidade. Queria acordar e descobrir que os idosos têm atendimento e cuidados especiais em todos os lugares. Queria acordar e descobrir que não é preciso grades e superfechaduras para ter segurança. Queria acordar e descobrir que todos os deuses são do bem. Queria acordar e descobrir que não é preciso sentir medo de ser morto por ser negro, gay, lésbica ou do morro. Queira acordar e descobrir tanta coisa. Apenas acordei.  (30/11/2016)

Desde quando somos bons?

Desde as pedras até a bomba atômica, cada civilização trata de impor a sua vontade à outra. Já destruímos cidades, países, impérios. Na ânsia de dominar acabamos com a história de vários povos. Desenvolvemos os mais variados e cruéis métodos de tortura. As mais poderosas armas de aniquilação. Criamos imperadores, ditadores, déspotas e todo tipo de piores governantes. Gostamos de ver a desgraça alheia, nos satisfazemos sabendo do sofrimento do outro e ainda julgamos: quem mandou andar por aquele lugar, aquela hora, daquele jeito. As tragédias só nos comovem quando atingem personalidades ou pessoas iguais a nós. Os diferentes merecem sofrer por serem o que são e acreditarem em algo que nós não acreditamos, por “escolherem” um país, um lugar do “mal”.

 A história anda em círculos e a cada tempo voltamos ao início e recomeçamos na pré-história. A ânsia de poder e dominação sempre existirá, algumas vezes, mais controlada, mas nunca extinta. Poderá ser disfarçada em períodos como esse, de festas natalinas e crenças de um ano melhor, onde todos somos bonzinhos e caridosos. Mas a nossa face mais cruel sempre estará lá, esperando para ser desperta. Porque nunca fomos bons. (20/12/2016)