sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Feliz ano

2011 teve nuvens, mas também teve o brilho das estrelas
teve desilusões, mas também chegaram novos amigos
teve bola na trave, mas também teve muitos golaços
teve serra e mar
chuva e sol
tempestades e dias lindos
grosserias, mas também muita gentileza
teve brigas e também muitos abraços
2011 teve perdas, mas também teve muitas descobertas
teve despedidas e reencontros
Enfim, teve tudo o que faz da vida maravilhosa
Que venha 2012 com todas as suas surpresas, que é o bom da vida



terça-feira, 8 de novembro de 2011

Próxima parada

O sol ainda não tinha surgido e lá vinha ele caminhando pela rua. Os braços doíam, as pernas frágeis já não agüentavam andar tanto. A calça rasgada na altura do joelho esquerdo. A camiseta, uma vez tinha sido branca, agora, era de uma cor indefinida. Na cabeça, um boné escondia os poucos cabelos brancos. O rosto cansado, o olhar triste. As rodas do carrinho que empurrava quase já não tinham pneus. Cordas asseguravam o que trazia dentro, as grades já não existiam, nos lados eram apenas fios de nylon que davam suporte. Parou em frente ao prédio e começou a procurar coisas: papeis, latas, garrafas, madeira, tudo o que pudesse ser transformado em algo para sobreviver. Depois de procurar e organizar o que encontrou dentro do carrinho, sentou na beira da calçada, pegou uma sacola plástica que trazia amarrada no lado do carro, abriu com calma, tirou algo de dentro da sacola e pôs em cima das pernas, um pano envolvia um pedaço de pão, talvez de vários dias. Tranquilamente foi saboreando o primeiro alimento do dia, o olhar perdido na quadra de futebol em frente. A movimentação de carros na rua se intensificou e o seu começa a atrapalhar, mas nem isso tirou sua concentração. O homem do carrinho terminou de comer e lentamente foi se levantando, colocou a sacola com o pano dentro do carrinho, segurou a barra de ferro nas mãos e seguiu puxando o carro para o próximo ponto de parada.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Adeus não é tudo


Lendo um texto do Rubem Alves, passei a pensar em como gostaria que fosse meu velório. Sim, porque morrer é uma ocasião especial. Não é todo dia que se tem a oportunidade de ser chorada e reverenciada por tantas pessoas. Então, fiz uma lista de coisas que gostaria que meus amigos fizessem no dia em que estiver exposta à visitação pública.
Primeiro: Quero um lugar bem lindo e grande, todos precisam dar pelo menos uma passadinha por lá. Não precisa ter pressa para o enterro, que venham todos os que estão longe, afinal, terei muito tempo para descansar. Muitas flores, de todos os tipos, coloridas, mas nada de coroas artificiais, quero lindos cravos espalhados pelo chão, uma entrada de lírios amarelos e, claro, um pé de cactus como lembrança para cada convidado. Bebida e comida. Não precisa nada muito sofisticado, só o básico: vinho ou cerveja, pastas e pães, em abundância. E uma tortinha de limão para adoçar o dia.
O choro é livre, mas não precisa ser muito. Aquela choradinha básica, lembrando de como fui querida, amiga, prestativa e deu. No resto do tempo, música e dança, mas nada de funk ou sertaneja, muito rock e mpb. Quero um baile com banda e ficar no centro do salão, nada de me colocar para um canto. Cada convidado terá que deixar um depoimento bem bonito no lindo caderno que estará na entrada. Não precisa dizer que farei falta, isso é óbvio, podem contar histórias interessantes, momentos que compar-tilhamos, meus netos agradecerão. E na hora de ir para o crematório - sim, quero ser cremada - nada de ser comida por minúsculos bichinhos, uma comitiva de muitos carros acompanhando o carro de bombeiros que me levará, podemos até dar uma voltinha pelos arredores da cidade. Muitas faixas e flores decorando os carros. E na hora em que o fogo estiver me consumindo, Canção da América, do Milton Nascimento, cantado à capela por algum de meus amigos músicos iria muito bem. E por fim, depois de tudo concluído, que todos saiam felizes e comovidos com a linda cerimônia que acabaram de participar.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O centro das atenções

Ela chega escondida. Sabe que será a atração da festa e vai adiando a aparição. Aos poucos, começa a se mostrar, tira a capa preta que a envolve e se lança ao palco. É saudada, ovacionada e envolvida por todos. Mas a tranquilidade logo acaba. Todos querem tocá-la, não existe espaço para se esconder, e para onde vai, todos correm atrás. Seu traje começa a mostrar as marcas de tanto querer. Anda pra lá, anda pra cá e os seguidores vão junto. Ninguém se importa com os pingos de chuva que começam a cair, o que importa, nesse momento, é estar com ela, aproveitar ao máximo sua presença. Quando já não tem mais como fugir, resolve fazer a alegria de seus súditos e segue, magnífica, em direção ao centro do espetáculo. Um, dois, três passos, e, finalmente, a glória.
Porém, nem todos estão felizes. A metade sai reclamando, xingando, não era isso que esperavam, foi para o lado errado. Ela, que nunca teve a pretensão de ser o centro das atenções, se recolhe novamente. Já não será a mesma de quando chegou. A marca da grife quase se apagou, a cor brilhante que trazia no início, desapareceu. Seus oito gomos cilíndricos já não garantem a precisão anterior, resta apenas a forma arrendondada. A solução é voltar para o lugar de onde não deveria ter saído, o saco preto a aguarda.
Mas, apesar de ter sido rejeitada por alguns, de uma coisa ela tem certeza: na próxima partida de futebol será a atração novamente, pelo menos até o final do jogo.

domingo, 5 de junho de 2011

Reinício

Vivo num mundo de ilusão.
Sonho com o dia em que a humanidade dirá: para tudo, vamos começar de novo.
Será um dia em que as pessoas começaram a respeitar-se.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Primeiras linhas

Ver uma criança aprendendo as primeiras palavras é lindo, ouvir os primeiros sons é emocionante, assim como é emocionante ver as primeiras letras sendo escritas. Letras que vão contar uma vida, uma história. A felicidade a cada palavra escrita e lida é contagiante. Saber ler e escrever é algo indescritível, só mesmo quem não tem esse privilégio pode dizer o quão triste é não compreender o mundo das letras.
Para meu filho que está descobrindo como é um ser especial e privilegiado:
Sejas bem-vindo ao mundo das palavras. Nele encontrarás sonhos e aventuras. Descobrirás mundos, viajarás por histórias fantásticas. A partir de agora, terás um universo de coisas a descobrir. Bem-vindo a essa aventura maravilhosa que é saber ler e escrever.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Queremos mais

Comemorar o dia das mulheres sempre me pareceu um pouco contraditório. Se por um lado, devemos reverenciar as mulheres que morreram lutando por melhores condições de trabalho e vida, também é verdade que avançamos muito pouco desde então. É claro que viramos donas de fábricas, chegamos à presidência da República, somos comandantes de aeronaves, chefes de repartições públicas, sindicalistas, ministras, reitoras, e mais um monte de cargos importantes ocupados por mulheres. Mas - e sempre tem um mas -, ainda continuamos ganhando menos que os homens, nas mesmas funções, ainda continuamos a ser maltratadas, humilhadas e mortas, seja no Afeganistão ou no Brasil. Ainda continuamos a ser exploradas em publicidades como a loira gostosa que serve cervejas e o corpo aos homens, ou somos vistas como a que faz qualquer negócio para aparecer pelada em revistas masculinas. E a culpa não é apenas dos homens, que ainda nos vêem como objetos de decoração ou de uso, mas de toda a sociedade que não respeita as diferenças de todos os tipos. E das mulheres, especialmente, que ainda não descobriram a força que têm, que ainda educam seus filhos como se o mundo fosse um domínio masculino. O dia em que as mulheres acreditarem na sua força e descobrirem que as suas vidas não são uma concessão dos homens, como nos faz acreditar a igreja católica, o mundo será outro e apenas comemoraremos o feito daquelas operárias que acreditaram que podiam mudar suas vidas e das gerações futuras. Não precisamos de um dia em que somos convidadas a participar da tribuna de honra de um clube de futebol europeu, de um dia em que recebemos flores e beijos, de um dia em que podemos assistir a jogos ou espetáculos de graça, de um dia em que a maioria das empresas nos presta algum tipo de homenagem. Precisamos de todos os dias de respeito, de aceitação da nossa capacidade, de valorização do nosso potencial. Precisamos de uma sociedade que saiba ser humana e onde todos tenham oportunidades de demonstrar seus talentos sem ter que morrer por isso.

sexta-feira, 4 de março de 2011

O homem do carrinho

O rosto cansado, o olhar triste, parece esperar que os dias acabem logo. Todos os dias o vejo puxando o carrinho de coisas deixadas por outros, sem ter bem certeza para onde ir. Sua história de vida marcada no corpo. Parece apenas querer que o seu tempo acabe. Outro dia, uma árvore era seu descanso. Pensativo, olhando os carros e as pessoas passarem, a imaginar, talvez, quando aquilo tudo teria fim. Os braços já não suportam o peso da carga, desde sempre teve que algo para empurrar. Não se importa mais com a indiferença, já viveu o suficiente para se bastar. Fico a imaginar o motivo de seu olhar perdido. Será triste por saber que acabará os dias como começou? Como saber. Apenas segue o homem do carrinho a cruzar mais uma avenida.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Armário

Por que os fantasmas sempre voltam se já os enterrei no fundo do armário?
Só faltou lacrar a porta, deve ser isso!

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Os guris da rua

Final de tarde. Aos poucos eles vão chegando, dois, quatro, oito, dali a pouco já são dez. Na rua são os donos, os carros que desviem, pois nesse momento não podem parar. Com sol, ou sem, eles estão lá. Se chover melhor ainda, lama e água completam o espetáculo.
Na cidade de um milhão e meio de pessoas que não param, a rua para e os guris jogam bola.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Arquimedes

Viver a vida toda em uma cidade é algo interessante. Conhecer sua história, suas ruas, seu povo. Fazer parte de uma história. Andar pelas ruas e lembrar casas e prédios que não existem mais, pessoas que passaram por ali, lembrança de épocas que fizeram sua vida e a vida da cidade. Virar e esquina e encontrar um conhecido, começar o dia com o pão quentinho da padaria, perguntar pela família do livreiro, ver crescer os filhos do vizinho e saber onde estão e quando voltam para casa, encontrar os amigos no café todas as tardes. Viajar, conhecer outros lugares, mas voltar e ter um referencial, voltar e saber que tudo está praticamente igual.
Tudo isso porque li a alguns meses Arquimedes, um romance coletivo de oito escritores santa-marienses, natos ou adotados. Ambientado em Santa Maria, onde nasci e passei alguns períodos da minha vida, recria uma cidade da memória dos autores, e me despertou belas recordações dessa minha cidade tão rica de lembranças e, agora, tão distante.