O sol ainda não tinha surgido e lá vinha ele caminhando pela rua. Os braços doíam, as pernas frágeis já não agüentavam andar tanto. A calça rasgada na altura do joelho esquerdo. A camiseta, uma vez tinha sido branca, agora, era de uma cor indefinida. Na cabeça, um boné escondia os poucos cabelos brancos. O rosto cansado, o olhar triste. As rodas do carrinho que empurrava quase já não tinham pneus. Cordas asseguravam o que trazia dentro, as grades já não existiam, nos lados eram apenas fios de nylon que davam suporte. Parou em frente ao prédio e começou a procurar coisas: papeis, latas, garrafas, madeira, tudo o que pudesse ser transformado em algo para sobreviver. Depois de procurar e organizar o que encontrou dentro do carrinho, sentou na beira da calçada, pegou uma sacola plástica que trazia amarrada no lado do carro, abriu com calma, tirou algo de dentro da sacola e pôs em cima das pernas, um pano envolvia um pedaço de pão, talvez de vários dias. Tranquilamente foi saboreando o primeiro alimento do dia, o olhar perdido na quadra de futebol em frente. A movimentação de carros na rua se intensificou e o seu começa a atrapalhar, mas nem isso tirou sua concentração. O homem do carrinho terminou de comer e lentamente foi se levantando, colocou a sacola com o pano dentro do carrinho, segurou a barra de ferro nas mãos e seguiu puxando o carro para o próximo ponto de parada.
Fora da minha vida (*)
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*Teu cheiro ainda impregnado em todos os meus poros Teu pulôver em tom
esverdeado na prateleira do roupeiro Teu livro sobre Fidel ...
Há 7 meses