terça-feira, 8 de novembro de 2011

Próxima parada

O sol ainda não tinha surgido e lá vinha ele caminhando pela rua. Os braços doíam, as pernas frágeis já não agüentavam andar tanto. A calça rasgada na altura do joelho esquerdo. A camiseta, uma vez tinha sido branca, agora, era de uma cor indefinida. Na cabeça, um boné escondia os poucos cabelos brancos. O rosto cansado, o olhar triste. As rodas do carrinho que empurrava quase já não tinham pneus. Cordas asseguravam o que trazia dentro, as grades já não existiam, nos lados eram apenas fios de nylon que davam suporte. Parou em frente ao prédio e começou a procurar coisas: papeis, latas, garrafas, madeira, tudo o que pudesse ser transformado em algo para sobreviver. Depois de procurar e organizar o que encontrou dentro do carrinho, sentou na beira da calçada, pegou uma sacola plástica que trazia amarrada no lado do carro, abriu com calma, tirou algo de dentro da sacola e pôs em cima das pernas, um pano envolvia um pedaço de pão, talvez de vários dias. Tranquilamente foi saboreando o primeiro alimento do dia, o olhar perdido na quadra de futebol em frente. A movimentação de carros na rua se intensificou e o seu começa a atrapalhar, mas nem isso tirou sua concentração. O homem do carrinho terminou de comer e lentamente foi se levantando, colocou a sacola com o pano dentro do carrinho, segurou a barra de ferro nas mãos e seguiu puxando o carro para o próximo ponto de parada.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Adeus não é tudo


Lendo um texto do Rubem Alves, passei a pensar em como gostaria que fosse meu velório. Sim, porque morrer é uma ocasião especial. Não é todo dia que se tem a oportunidade de ser chorada e reverenciada por tantas pessoas. Então, fiz uma lista de coisas que gostaria que meus amigos fizessem no dia em que estiver exposta à visitação pública.
Primeiro: Quero um lugar bem lindo e grande, todos precisam dar pelo menos uma passadinha por lá. Não precisa ter pressa para o enterro, que venham todos os que estão longe, afinal, terei muito tempo para descansar. Muitas flores, de todos os tipos, coloridas, mas nada de coroas artificiais, quero lindos cravos espalhados pelo chão, uma entrada de lírios amarelos e, claro, um pé de cactus como lembrança para cada convidado. Bebida e comida. Não precisa nada muito sofisticado, só o básico: vinho ou cerveja, pastas e pães, em abundância. E uma tortinha de limão para adoçar o dia.
O choro é livre, mas não precisa ser muito. Aquela choradinha básica, lembrando de como fui querida, amiga, prestativa e deu. No resto do tempo, música e dança, mas nada de funk ou sertaneja, muito rock e mpb. Quero um baile com banda e ficar no centro do salão, nada de me colocar para um canto. Cada convidado terá que deixar um depoimento bem bonito no lindo caderno que estará na entrada. Não precisa dizer que farei falta, isso é óbvio, podem contar histórias interessantes, momentos que compar-tilhamos, meus netos agradecerão. E na hora de ir para o crematório - sim, quero ser cremada - nada de ser comida por minúsculos bichinhos, uma comitiva de muitos carros acompanhando o carro de bombeiros que me levará, podemos até dar uma voltinha pelos arredores da cidade. Muitas faixas e flores decorando os carros. E na hora em que o fogo estiver me consumindo, Canção da América, do Milton Nascimento, cantado à capela por algum de meus amigos músicos iria muito bem. E por fim, depois de tudo concluído, que todos saiam felizes e comovidos com a linda cerimônia que acabaram de participar.